quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

tocando o terror contra o medo













1. não gosto de avisos de segurança;
2. ninguém me perguntou se eu quero ver essas imagens todo o tempo em que estou na rua;
3. eu não tenho medo da rua;
4. se é pra encher muros, prefiro pixações. e plantas;
5. todo mundo pode deixar sua marca na cidade;
6. a paisagem da rua não é propriedade das empresas de segurança;
7. ouça: o zumbido que sai desses adesivos: tenha medo, tenha medo, tenha medo, tenha medo...;
8. ouça: o zumbido da minha marca na cidade: confie no que vem, confie no que vem...;
9. a rua é minha também;
10. marcar território: coisa de cachorros, gatos e de humanos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

sabores                                             registros de viagem bahia, 2008

sábado, 16 de novembro de 2013

Nathan e o mundo subterrâneo

Começo do capítulo 2


Nathan acordou cedo, com o sol fraco e alaranjado que iluminava o cômodo por um buraco no teto, feito essencialmente para isso. Sempre no dia de descanso, uma vez a cada cinco dias e dia em que Nathan não tem aulas, ele aproveita para ir até as tendas públicas. A escassez de água em Seith fazia com que os moradores mais pobres fossem obrigados a tomar banho nessas tendas, uma coisa considerada completamente normal para a maioria da população.
            Ele pega a mochila da escola, ainda sonolento, e substitui os materiais escolares por uma toalha e um saco contendo uma pasta de ervas aromáticas.
            Nathan corre até um extremidade da cidade, onde se localizam duas tendas protegidas por uma cerca muito mal acabada. Colocando nas mãos do guarda o pagamento dos banhos da família, o menino pula a cerca e entra na tenda da esquerda.
            Mesmo não soando muito bem para os cidadãos de Seith, a maioria dos garotos de famílias pobres gostavam da tenda, porque lá ninguém vigiava o que eles faziam. As conversas variavam e passavam por todos os assuntos não permitidos na escola e na presença dos inúmeros guardas que patrulhavam a cidade.
            Mas naquele dia Nathan estava muito ocupado para lembrar-se das vantagens de estar na Tenda e falar com alguém. Ainda lembrava a conversa que tivera com a mãe há apenas algumas horas atrás. Cada frase, palavra e letra ecoavam em sua cabeça e faziam um peso enorme em seu peito. Então se lembrou que não havia falado com Marylin. Saiu tão apressado da Tenda que tropeçou em uma poça e caiu, derrubando o conteúdo da mochila. Juntou suas coisas o mais rápido possível e saiu, então se lembrou que teria que esperar a amiga sair do banho e começou a se sentir idiota.
            Quando viu a garota sair, correu até ela e quase que os dois se chocam.
- Meu deus, menino, o que houve com você?
 A amiga pergunta, abrindo um sorriso.
-Eu preciso te contar uma coisa, mas- Nathan olha para os lados- não pode ser aqui.
- Tudo bem, eu tava de saída, mesmo.
            O garoto olha para Marylin, que devolve o olhar e entende o recado. Em uma cidade com um governo tão parecido com a ditadura militar, era muito útil aprender a se comunicar com os olhos.
            Os dois correm para seu esconderijo preferido, uma espécie de sala minúscula dentro do labirinto de túneis secretos que cercavam e passavam por Seith. Nathan e Marylin passam despercebidos por alguns guardas, mas já haviam passado pelo caminho tantas vezes que em poucos minutos já estavam agachados em uma passagem estreia de um túnel que cheirava a lodo e mofo.
            Nathan conta a história a Marylin e lhe mostra o colar. Ela faz à Nathan todas as perguntas que o garoto não teve coragem de fazer à mãe e ao tio.
            - Mas, Nathan, essa coisa de tecnologia, você não fica curioso com o fato de que nunca nos disseram isso?
            Nathan se lembrou Da aula de história na comemoração de 160 anos no subterrâneo, quando o prefeito foi visitar a escola e contou como os homens haviam chegado ao subterrâneo:
"Quando o Senhor de Todas as Coisas criou os seres humanos, colocou eles na superfície, um lugar maravilhoso e cheio de flores, florestas, cachoeiras e planícies, e avisou que eles deviam deixar o que ele chamava de natureza em seu devido lugar. Mas, depois de um tempo, os homens passaram a não cuidar de sua morada e a não deixar as coisas em seus respectivos lugares, e o Senhor de Todas as Coisas ficou muito bravo e jogou todos os seus poderes no Éden, obrigando os homens a viverem embaixo da terra e lhe dando mais tempo para reconstruir seu jardim."

            Nem era preciso dizer que a maioria das crianças não acreditou nisso. A ideia de que Senhor de Todas as Coisas havia destruído sua criação por causa dos humanos não era apenas absurda quanto um tanto narcisista. E Marylin pensava assim: se o Senhor de Todas as Coisas era perfeito e maltratava seus próprios filhos, nós, que somos "meros mortais" e perdoamos nossos filhos por qualquer coisa, somos melhores que ele?

domingo, 10 de novembro de 2013

Nathan, o mundo subterrâneo

Final do capítulo 1

-Mãe, cheguei!
Ele diz, o que faz sua mãe erguer o pescoço de uma panela com um conteúdo viscoso e escuro que lembra lama.
Nathan se senta no sofá e sua irmã lhe entrega um desenho em uma folha mal-arrancada.
- Meu caderno! Ceci, quantas folhas você arrancou?
-Ela só tem dois anos, deixa.
A mãe fala da cozinha, muito calma.
            Nathan olha por um pequeno buraco feito na parede da sala, obviamente para servir de janela. Uma menina de cabelos azuis brinca com um garoto moreno, que tem um gato no colo. Aquele animal, do tamanho das duas mão do garoto, era um adulto laranja que Nathan havia resgatado a três meses de guardas que queriam machuca-lo. Cristen quebra o silencio colocando os pratos e a panela na mesa.
            -Nathan, Jantar!
            O garoto se afasta da janela e se senta em uma almofada na frente de sua mãe e seu tio e ao lado de Ceci, que está mais ocupada em brincar com os talheres do que comer a sopa gosmenta da mãe.
            Nathan coloca a colher no prato cheio, mexe o conteúdo e torna a tirar a colher, colocando em cima de um guardanapo de pano um pouco sujo. Deve esperar o momento certo para falar com Cristen. Após alguns minutos, toma coragem e começa:
            -Mãe...
            Balbucia Nathan, que ainda não conseguia juntar as palavras.
            -Marylin me levantou uma dúvida...
            Cristen interrompe o filho:
            -Nathan, querido, eu e seu tio conversamos e eu acho que tínhamos que discutir sobre uma coisa.
            Cristen faz cara de preocupação e Nathan, de tédio.
            -É sobre Iohan...
            Os dois falam ao mesmo tempo. Nathan se cala imediatamente e espera a mãe falar.
            - Já faz algum tempo que o seu avô fundou uma espécie de... Ceci, pode ir brincar um pouco? É um assunto de gente grande.
            Ceci olha para a mãe com a cara emburrada e se afasta
-Gente grande gosta de fazer tudo sozinho!
            Cristen sorri para a filha e olha novamente para Nathan.
            - Seu avô formou uma espécie de clube secreto contra o Governo e a ditadura na época, mas não conseguimos manter e ele acabou quando você tinha cinco anos.
            Nathan não estava entendendo nada. O que um clube secreto tinha a ver com Iohan, ele não sabia, mas sua mãe não havia terminado.
            -Assim como Belo, seu pai se infiltra no Governo e descobre o que eles fazem, e isso ajuda muito pra descobrir o que pode acontecer com Seith futuramente. Peço desculpas por ter escondido isso de você, mas estávamos esperando o momento certo. A gente não podia contar até que achasse que você estava interessado.
            -Nathan, isso é para você.
            Belo diz, após uma pausa, e entrega um colar ao garoto. Ele tem um símbolo, uma linha prateada e, logo abaixo, flutuando, um pequeno círculo preto.
            - O círculo flutua.
            -É a tecnologia do mundo de cima.
O garoto não sabia o que falar, muito menos o que fazer. Estava em choque, e perguntas retumbavam em sua cabeça. Que tecnologia era essa? Porque seus professores os haviam ensinado que os ex-habitantes do mundo de cima eram nada menos que homens das cavernas? Porque Belo nunca deixava Nathan conhecer seu pai? Como Nathan fora tão idiota em pensar que seu pai realmente queria trabalhar para o governo, e não ser um tipo de espião como seu tio? Como o Clube Antigoverno terminou?
            Nathan havia ficado extremamente confuso, mas não achava que perguntar era prudente, então ficou apenas encarando a mãe por um longo tempo.
            -Nathan, querido, acho melhor você ir dormir, queria que você fosse tomar banho amanhã.


            - Mãe, como você consegue estragar um momento de tensão tão fácil?

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Pedaço 2 de 3 do capítulo 1


Da mais alguns passos e bate na porta. Uma garota de cabelos enrolados, castanho-avermelhados e pouco volumosos atende e olha fixamente para os olhos de Nathan, que retribui o olhar. Ela o convida para entrar.
Nathan passa os olhos pela casa ligeiramente parecida com a sua só que um pouco maior e mais barulhenta. Marylin escolhe um lugar para os dois sentarem e observarem a grande bagunça do cômodo cheio de crianças.
 Nadja, a mãe da menina, vê que Nathan esta lá e da um sorriso amarelo. Ela não gostava muito dele desde que havia deixado algumas mariposas entrarem pela janela da sala de aula, e ele e Marylin pagaram pelo crime.
Marylin tinha cinco irmãos, todos muito parecidos com ela e sua mãe. Sua casa sempre fora barulhenta, Nathan se lembrava de todas as vezes que entrara na morada da amiga de infância, que conhecera durante uma fuga da escola que havia acabado com ele voltando para casa apoiado nela e com o rosto repleto de lama. Desde que se conhecem, os dois sempre fogem das confusões da família para explorar Seith, e desde muito ele e Mary estão planejando ir a uma parte da Ala que fica atrás do colégio e que é protegida por um grande portão de metal que sempre despertou a curiosidade dos dois. Todas as anteriores tentativas de passar por ali foram frustradas. Dessa vez os dois pensavam que não seria.
Após longos minutos, Nathan e a amiga ficaram encarando uma enorme ampulheta, cuja areia havia passado ligeiramente da metade e depois se olharam, os dois com sorrisos maliciosos estampados em sua face.
-Vamos?
-Vamos!
Marylin se levanta repentinamente da poltrona de retalhos onde estava sentada e os dois saem pela porta. Correm pela cidade para tentarem passar em um de seus lugares preferidos e descansar, antes de começar a aventura. Passam por várias casas e a paisagem vai mudando, o chão fica coberto de grama e uma luz alaranjada e forte enche o local. Uma grande barreira de vidro coberta por plantas que buscam cegamente os raios de sol se posta na frente deles. Marylin senta e Nathan faz o mesmo. Tira a fruta que havia roubado a pouco do bolso e oferece à amiga, que pergunta:
- Alguma novidade?
- Briguei com a minha mãe.
- Por quê?
-Você sabe.
- Já parou para descobrir quem esse cara é? Já perguntou pra sua mãe?
-Ele é um porco. E você, novidades? Nunca vi a sala tão cheia.
Mary observa a fruta e dá uma mordida.
-Meu irmão, o Josh, sabe? Meus pais acharam drogas embaixo das camas de toda a família e agora meus pais não querem que a gente entre nos quartos.
Nathan observa as plantas exóticas que cobrem o chão e as paredes. Marylin tinha razão, ele nunca parou para perguntar quem seu pai era e o que fazia. Primeira pergunta do dia anotada em sua agenda imaginária. Ele percebe que Marylin parou para olhar para ele e se levantou. Ela começa a correr com intenção de divertir Nathan. Deu certo. Os dois disparam e pegam um atalho por um túnel velho e fedorento que corta a cidade. Quando o túnel acaba eles ficam cara a cara com a grande porta de metal. É o horário de troca de guardas, e os dois devem aproveitar ao máximo o curto espaço de tempo para passar pela porta.
Um homem de ombros largos e cabelos muito negros está postado no portão quando vê que o expediente acaba. Ele se dirige para uma casinha próxima, dando oportunidade a Marylin e Nathan. A garota é a primeira e se dirige a porta correndo. Quando metade de seu corpo já está dentro do setor desconhecido, um homem sem camisa nem calças se encaminha até perto da porta de metal e começa a gritar e rir, chamando a atenção do guarda. Marylin tem o tempo necessário para sair dali e fugir com o amigo de volta para a barreira de vidro.
- já viu que é a quinta vez que isso nos acontece, e é sempre o mesmo cara?
Marylin pergunta, indignada.
-vai ver o hospício fica conspirando com o governo e deixa os loucos soltos sempre que tentamos passar pela porta
Os dois riem com aquela ideia absurda, e Nathan segue Marylin até sua casa e corre para a dele. Ao entrar, Belo já chegou e está sentado na minúscula cozinha, onde Cristen prepara o jantar.

-Cheguei! 

domingo, 13 de outubro de 2013

Quando você pensa que o mundo tem salvação...

Cultura do estupro

Hoje aconteceu uma coisa que me deixou brava, triste, preocupada, desesperada, sem saída e ligeiramente deprimida. 
Eu estava conversando com a Bia, minha amiga, enquanto ela mexia no facebook. No meio da conversa ela me disse que uma menina mandou um vídeo de uma mulher sendo estuprada com o comentário: "olha que vídeo legal!".
Isso desnorteou completamente a minha mente, eu tive aquela sensação de como toda a minha energia tivesse sido sugada para dentro do meu peito e virasse cimento. Minha primeira sensação foi uma raiva imensa daquela menina, um ódio vindo bem de dentro do meu peito coberto de cimento, e eu pedi para a Bia perguntar (para a menina) se ela acharia divertido se alguém invadisse a casa dela, a estuprasse e filmasse e colocasse nas redes sociais e ela respondeu: "mas não aconteceu comigo".
Nojo. Essa lógica do "antes ela do que eu" só não é asquerosa porque asquerosa não é asqueroso o bastante para o nojo que eu sinto desse tipo de gente.
É uma menina, gente. Uma pessoa real, que tinha uma vida maravilhosa, talvez não, feita de carne, osso e mente. Não era um filme, não era desligar a TV e esquecer o problema. Era uma pessoa, igual e diferente de todos em volta dela, que estava, sei lá, saindo para comprar pão ou em casa com a porta aberta para arejar, e então toda a realidade do mundo é destruída por pessoas que já não são mais pessoas pela merda que eles escolheram para viver, e como se não bastasse apenas foderem física e psicologicamente com ela, ainda filmam e botam na internet. Então alguém assiste, e em vez de pensar "meu deus, que mundo que é esse"? Eu tenho que arranjar um jeito de pegar umas fotos desses caras, vai alguém reconhece o rosto," pensa " nossa, que engraçado, vou mandar para os meus amigos," essa pessoa chega no mesmo nível de um estuprador, por que, além de destruir e corroer ainda mais a vida dessa pessoa, ela divulga como se fosse uma coisa legal e engraçada.
Ela chega no mesmo nível de um estuprador por que não pensa que essa menina tinha uma vida de uma pessoa normal.
Pois é, quando você pensa que o mundo tem salvação chega um completo imbecil e mostra que, na verdade, ele está mais fodido do que antes.

Alice Luna

domingo, 15 de setembro de 2013

Oi gente!
 pela primeira vez alguém teve uma conversa/crítica comigo (aliás, vocês leitores deviam fazer isso mais vezes), que foi meu tio. Mesmo achando que ele usou o livro pra falar de estado e do meu psicológico, pedi pra publicar e ele deixou, mas só o comecinho da conversa:


Boa tarde moça.
Bacana o blog, parabéns, está escrevendo muito bem.
Queria comentar uma coisa sobre o seu personagem que, provavelmente seja seu alter ego ou próximo disso. Me incomodou que durante a narrativa o personagem roubasse uma maçã, não sei o que você pretendia com essa parte, se era meramente ilustrativo, se pretendia enfatizar como o personagem está a parte das convenções da sociedade, e é aí nesse segundo caso que quero te dar um toque.
Negar algumas convenções sociais e não segui-las cegamente pode ser até um sinal de inteligência, só que roubar não é apenas deixar de seguir uma regra, é errado moralmente.

Vou postar apenas alguns trechos da minha resposta, porque sem o resto do que ele postou, ficaria sem sentido.

po, caio eles tão em 2300 e sei lá quanto, vc acha que as regras são as mesmas?
vc ñ acha que o mocinho tem q ter alguns defeitos, não, se não fica mto novela da Globo?
(...)
eu sei q roubar e errado, mas não acho q seja tããããão sério assim
(...)
eu sei q ele é meio alice mas continua sendo um personagem. não é real, e tem seus defeitos e qualidades não reais. vc acha q como personagem, o fato de roubar vai torna-lo pior?
(...)
vc acha que meu livro vai "levar a mente dos pequenos leitores para o lado incorreto"?
(...)
é um livro não é real